"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata....."
Clarice Lispector
Faz muito tempo que não publico um texto. Não que eu tenha deixado de escrever, mas simplesmente deixei de publicar, por vários motivos que não vem ao caso. Há muito tempo que eu tô engasgada querendo falar sobre os acontecimentos atuais, porém venho sempre protelando. Só que hoje eu não consegui. E cá estou eu, me aventurando novamente nessa vida de blogueira. Não tenho a pretensão de ser escritora, formadora de opinião ou qualquer coisa desse tipo. Tenho o direito de me expressar - opa, alguém se lembra que isso já foi proibido? A liberdade de expressão já foi limitada e ninguém mais se lembra disso, até porque, no mundo que vivemos é até difícil imaginar uma realidade em que as pessoas não podiam se expressar. Mas esse tempo existiu. Assim como existiu um tempo em que negros não podiam casar com brancos, em que negros não podiam frequentar os mesmos lugares que os brancos, em que mulheres divorciadas e mãe solteiras eram um absurdo e adultério era crime tipificado no Código Penal.
Enfim, o motivo que me levou a começar a escrever isso foi um fato que me deixou muito triste. Dias desses, relembrando a época de adolescência eu e meu amigo perguntávamos sobre o paradeiro de um colega. Um menino alegre, divertido, bem-humorado e muito engraçado. Ah, também era gay. Com o passar do tempo, perdemos contato com ele. Ninguém nunca mais teve notícias nem ouviu falar. Até que essa semana, fiquei sabendo que ele suicidou há uns três anos. O motivo que o levou a fazer isso eu desconheço. Mas tenho conhecimento que a família não aceitava o fato dele ser homossexual e que a mãe dele chegou a dizer que preferia ter um filho morto do que gay. Quando soube dessa notícia, além do choque inicial de saber de uma tragédia dessas tanto tempo depois, foi a profunda tristeza de saber que ele precisou chegar a esse ponto, pois aqueles que mais deveriam amá-lo não o aceitaram do jeito que ele nasceu.
E aí eu entro onde eu quero chegar. Homossexualidade não é opção, não é escolha. Não é " sem-vergonhice" nem "falta do que fazer". Ninguém acorda e fala "nossa, hoje estou com uma vontade de ser homossexual." Algumas pessoas nascem brancas, outras pretas, outras heterossexuais homossexuais, assexuadas, bissexuais. São todos seres humanos. A orientação sexual de uma pessoa não deveria ser o que a define. É apenas uma parte dela. O homossexual sente, chora, grita e também ama. Só que ele ama uma pessoa do mesmo sexo. Sinceramente, que diferença faz? Se é homem ou mulher, são todos seres humanos acima de tudo. Seres humanos adultos e vacinados. Se uma pessoa sabe o que lhe faz feliz, quem sou eu pra julgar? Querer que o casamento gay seja reconhecido perante a lei é reconhecer direitos civis de alguns seres humanos que por acaso amam alguém do mesmo sexo. E pra mim, casamento é baseado em AMOR. O amor, aquele sentimento que todos conhecem. Amor, aquele que quando vem não tem como evitar. Casamento é amor, companheirismo, cumplicidade, querer passar o resto da vida juntos.
Não estou aqui para rebater argumentos conservadores e batidos que, na minha opinião, são condenatórios e ofensivos. Vou copiar uma frase de um texto de Alexandre Vidal Porto: " Toda superação de preconceitos exige ampliação de conhecimentos." As pessoas tem medo do desconhecido. O discurso de Madonna no GLAAD Awards, resume parte do que eu venho tentando dizer e fala por mim:
"Muitas pessoas não ficam confortáveis com algo ou com alguém que elas percebam que sejam diferentes delas, e aposto que se nós só tivermos tempo para conhecer um ao outro, fizéssemos a nossa própria investigação, olhasse além da superfície das coisas, iríamos ver que não somos tão diferentes assim.
[...]
tudo é tão absurdo. E colocam tudo em nome de Deus. O que Jesus ensinou? Está em todos os livros sagrados: ame o teu próximo como a ti mesmo. Então, você não pode usar o nome de Deus ou uma religião para justificar atos de violência para machucar, odiar ou discriminar alguém.
[...]
Quando pensamos nas crianças hoje em dia aqui na América que tem sido agredidas, torturadas, sofrendo bullying, que estão tirando suas vidas por se sentirem sozinhas, abandonadas, julgadas e mal compreendidas eu tenho vontade de sentar e chorar sem parar.
E não é diferente de quando uma supremacia branca pendura um negro numa árvore para falar dos direitos civis. Não é diferente do que um membro do Talibã atirar na cabeça de uma garota por ela estar escrevendo um blog sobre a importância (veja só) da educação. Não é pior do que um gay iraniano ser enforcado por estar apaixonado por outro homem."
Não vou entrar no mérito da religião. Como a Madonna disse, está lá no segundo mandamento "Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Marcos 12:31"
Eu nunca vou entender porque algumas pessoas simplesmente não aceitam que alguém possa amar uma pessoa do mesmo sexo. Nunca vou entender, porque pra mim toda forma de amor é válida. Quanto mais amor, melhor. Mais amor, por favor. ♥
