domingo, 14 de fevereiro de 2010

"A vida é um sonho. É o acordar que nos mata".


"As horas, as dúvidas. As horas, o tempo. Que ao passar nos vai encurralando na teia das nossas próprias escolhas. O amor. A sua estranheza. O outro. O que a vida é e o que poderia ser. O espanto. A inadaptação. " Michael Cunningham


Ás vezes eu acho que nasci com 60 anos de idade. Eu não sei explicar como que, aos 20 anos, eu consigo ser tão desiludida com a vida, com as pessoas e com os relacionamentos em geral. A verdade é que, aos 20 anos eu vivo como se tivesse 60 na maioria das vezes. Claro que eu tenho a energia de uma jovem da minha idade. Gosto de sair, beber, beijar. Gosto de passar horas me arrumando pra receber elogios quando saio. Não aguento ficar em casa sábado a noite. Coisa de gente jovem. Mas eu me lembro bem, quando era criança, de ver algumas brigas entre meus pais e me trancava no quarto e repetia pra mim mesma em voz alta : "eu nunca vou passar por isso, nunca." E também vi mulheres chorando e sofrendo por causa de relacionamentos. Vi amigas passarem por isso também, então eu cresci cansada. Cresci cansada de ver mulheres sensíveis dependentes de relacionamentos pra atingir uma certa estabilidade emocional. Acho que o maior problema começa quando, ainda meninas, a gente aprende que um dia vamos encontrar nossa "cara-metade" ou a "tampa pra nossa panela". Isso é um erro fatal. Nós somos seres humanos completos, não precisamos de outra "metade" simplesmente porque somos únicos e complexos o suficiente. Não somos metade. Por isso deveriam ensinar as crianças que somos "inteiros" e o máximo que encontraremos é alguém querendo compartilhar sua completude. Não imaginaria, porém, que quando eu me trancava no quarto dizendo a mim mesma, repetidamente, que não deixaria aquilo acontecer comigo, eu estava criando uma espécie de bloqueio. Hoje eu não consigo acreditar em nada. Por isso eu digo que nasci velha. Eu estou cansada quando na verdade eu não vivi quase nada nessa vida. Eu tenho lembranças de coisas que nem vivi. Ás vezes eu tenho a sensação que estou parada numa estação de trem. Aí o trem fica passado e o trem é a vida. Aí tá todo mundo dentro do trem, seguindo viagem. Algumas pessoas param na estação e me perguntam: "Você não vai entrar?" e eu fico constantemente dizendo a mim mesma: "Agora não. Talvez mais tarde". E as pessoas vão embora. Enquanto todos seguem viagem eu fico parada na estação. Eu tenho essa sensação o tempo inteiro. Enquanto o trem continuar passando eu terei a chance de entrar nele e seguir adiante. Mas um dia ele vai parar de passar. E quando ele parar eu vou ter a certeza de que nunca encontrei o que eu estava procurando, porque o que eu estava procurando na verdade nunca existiu.

Um comentário:

Ricardo disse...

Por motivos, talvez, completamente outros, eu tenho essa sensação da estação de trem de que vc disse... mas de forma completamente diferente, também.
você se sente sozinha numa estação e o trem não para pra você. Eu me sinto dentro do trem, sozinho, no meio de um tanto de gente se acotovelando. O trem para numa estação: "não, ainda não é a minha." - para na próxima: "não, ainda está muito cedo."
E assim eu vou adiando o momento do encontro. Encontro comigo mesmo.
minha sensação é de que eu estou sempre indo a um lugar que não é aqui. Mas se você parar e pensar, assim como só existe o agora, a gente só tem o aqui. Eu nunca vou estar 'lá', porque se estiver, pra mim, o lá será aqui. Então, se eu estou sempre ido a um lugar que não é aqui, eu estou sempre me desencontrando comigo mesmo. E se não me encontro comigo... que dirá com os outros.
Mas é assim mesmo. Isso é ir indo. Eu vou indo, e você, como vai?
Resumindo tudo isso: já que eu não desci do trem até agora, eu me acostumei tanto com a viagem que tenho medo de descer numa estação e me arrepender; medo de perceber que devia ter descido antes; de perceber que meu tempo já passou. O que é uma grande besteira, porque a gente está sempre e invariavelmente atrasado. Por isso é que eu tenho essa sensação de velho e de saudade do não vivido.